Muita gente acha que empresa grande já nasce grande, com dinheiro, sócios e estrutura prontos. Na análise de Fredy da Silva Gonçalves Bento, empresário e empreendedor, a história costuma ser outra: os grandes negócios quase sempre começam num cômodo da casa, com pouco capital e muita improvisação. O próprio Fredy começou a empreender por volta do ano 2000, vendendo roupas no quarto de casa, e hoje é CEO da Litoral Mobilidade, rede de lojas de mobilidade elétrica no litoral paulista.
Para ilustrar o que separa um começo pequeno de um negócio que cresce, vale acompanhar uma situação ilustrativa. Cleonice, 41 anos, moradora de Londrina, no Paraná, revende cosméticos para vizinhas e colegas de trabalho. Os pedidos aumentam, e ela anota tudo em um caderno, mistura o dinheiro da casa com o do negócio e não sabe quanto sobra no fim do mês.
O que muda quando o varejo deixa de ser improviso?
A primeira mudança é separar o que é da casa do que é do negócio. Em pequenas operações de revenda, o caixa costuma ser um só, e a falta de registro esconde tanto o prejuízo quanto o lucro. Quando Cleonice passa a anotar entradas, saídas e estoque, descobre que dois produtos respondem pela maior parte das vendas, enquanto outros ficam meses parados.
Na leitura de Fredy da Silva Gonçalves Bento, a passagem da informalidade para uma marca exige tratar o consumidor como alguém que volta, e não como uma venda isolada. Ele criou a Restrito, marca que fez parte do início da sua vida empresarial, e a lógica vale para qualquer começo: um nome reconhecível e um padrão de atendimento que se repete a cada compra ajudam a confiança a se formar. É como uma receita de família, que só vira tradição quando sai igual toda vez.
Como o empreendedorismo atravessa fases e setores?
Com o tempo, Cleonice enfrenta uma segunda pergunta: continuar revendendo para a vizinhança ou montar uma loja? Negócios que crescem costumam atravessar fases em que o que funcionava deixa de funcionar. O que bastava com dez compradores não sustenta cem, e a pessoa precisa aprender a delegar, contratar e planejar compras com antecedência. Muitos empreendedores tropeçam justamente nesse ponto, por insistirem em fazer sozinhos o que já pede uma equipe.
Conforme explica Fredy da Silva Gonçalves Bento, mais de duas décadas de empreendedorismo mostram que a trajetória raramente é uma linha reta. Ele passou pelas roupas, pela gastronomia, com o Restaurante Capitães e o Hina Restaurante, pelos eventos, com a Eventos Litoral, e pela mobilidade elétrica. Em cada mudança de setor, o empreendedor precisa reaprender o básico do novo ramo, e reconhecer isso cedo costuma evitar erros caros.
Que estrutura sustenta a expansão empresarial?
Quando a loja de Cleonice se firma, surge outra decisão: abrir uma segunda unidade ou licenciar a marca para outras pessoas. Em redes de varejo, crescer com qualidade depende de processos escritos, de fornecedores confiáveis, de treinamento de quem atende e de um estoque dimensionado ao que realmente se vende. Sem isso, cada nova loja repete os problemas da primeira, só que em escala maior.
Sob o entendimento de Fredy da Silva Gonçalves Bento, grandes empresas se constroem quando o fundador transforma o que sabe em método que outras pessoas consigam seguir. A Litoral Mobilidade tem centro de distribuição próprio com mais de 2.000 m², mais de 40 colaboradores e estoque de aproximadamente R$ 8 milhões, e seu projeto atual é virar uma rede de franquias com expansão nacional.
Cleonice ainda está longe disso, mas já entendeu o essencial: o tamanho do começo importa menos do que a disposição de organizar, aprender e recomeçar quantas vezes for preciso. O caderno guardado no corredor, afinal, é a primeira versão de um sistema de gestão, e muitos negócios grandes passaram por essa fase.

