Em meio às transformações recentes nas diretrizes de rastreamento, o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, ex-secretário de Saúde, assinala que o acesso à mamografia continua condicionado a fatores que nenhuma norma resolve de forma isolada. A Lei 11.664, de 2008, já assegurava a realização do exame no SUS a partir dos 40 anos, e as diretrizes de 2025 ampliaram as faixas atendidas. Entre o direito previsto e o exame efetivamente realizado, porém, existem distâncias físicas, carência de profissionais e equipamentos que nem sempre funcionam com a capacidade esperada.
Equipamento disponível não significa exame realizado
O Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde mostra que os mamógrafos estão concentrados nas grandes cidades e em serviços privados. Em muitas regiões, a mulher precisa se deslocar dezenas ou centenas de quilômetros para fazer o exame. Mesmo onde o aparelho existe, a produção pode ficar abaixo do potencial por falta de técnicos em radiologia, interrupções para manutenção ou ausência de contrato para a emissão dos laudos. O número de equipamentos instalados, isoladamente, diz pouco sobre a oferta real.
Em observação feita pelo Dr. Vinicius Rodrigues, a ociosidade de equipamentos públicos costuma ter origem em problemas de gestão, e não de tecnologia. Contratos de manutenção preventiva, escalas que estendam o horário de funcionamento e agendamento centralizado são medidas de baixo custo que ampliam a produção sem novos investimentos em aparelhos. Outro ponto sensível é o absenteísmo, já que vagas perdidas por faltas não comunicadas reduzem a capacidade efetiva da rede. Confirmar a presença com antecedência e remanejar horários são práticas simples com efeito imediato.
Como os municípios pequenos podem se organizar?
Para cidades com população reduzida, manter um serviço próprio de mamografia raramente é viável. Vinicius Rodrigues compara a tentativa de cada município sustentar sua estrutura com os modelos regionalizados, em que consórcios intermunicipais compartilham equipamentos, profissionais e custos. A regionalização exige pactuação entre gestores, regulação unificada das vagas e transporte sanitário organizado. Quando funciona, garante escala suficiente para manter o serviço ativo e permite que mulheres de diferentes localidades sejam atendidas com regularidade.
As unidades móveis complementam o modelo, levando o exame a comunidades distantes por períodos determinados. A estratégia é útil para alcançar populações que dificilmente chegariam ao serviço fixo, mas depende de planejamento prévio. Sem convocação organizada, a unidade atende quem aparece, e não necessariamente quem mais precisa. Sem retaguarda para investigação, os exames alterados ficam sem continuidade. O desenho mais eficiente combina serviços fixos regionais com rotas móveis previamente integradas à atenção primária.
Telerradiologia e laudos à distância
A escassez de radiologistas no interior encontra uma resposta parcial na telerradiologia, regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina desde 2014. No modelo, a imagem é adquirida no município de origem e enviada para leitura por especialistas localizados em outros centros. A prática permite que um serviço sem radiologista presente mantenha o exame em funcionamento, desde que o técnico esteja treinado e que exista conexão estável para transmitir arquivos de alta resolução.
Consoante análise de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a expansão da leitura remota precisa vir acompanhada de padrões de qualidade e de canais de comunicação entre quem realiza e quem interpreta o exame. Imagens tecnicamente insuficientes continuam sendo um problema, independentemente da distância do leitor. Investimentos em conectividade, sistemas de arquivamento de imagens e capacitação de técnicos locais formam a base para que a tecnologia reduza desigualdades, em vez de apenas transferir a demora de um ponto da rede para outro.

