De acordo com a Fource Consultoria, consultoria especializada em inteligência de mercado, reestruturação empresarial e gestão de ativos, muitas empresas em aperto financeiro têm recursos presos dentro da própria operação. Antes de buscar crédito novo, vale olhar para o capital de giro que está parado no balanço.
Capital de giro é o dinheiro necessário para sustentar o ciclo da operação: comprar, produzir, vender e receber. Esse ciclo é medido pelo prazo médio de estoque, somado ao prazo médio de recebimento e descontado o prazo médio de pagamento a fornecedores. Quanto mais longo o resultado, mais caixa a empresa precisa financiar.
Em processos de turnaround, encurtar esse ciclo é uma das formas mais rápidas de gerar recursos sem depender de terceiros. Descubra a seguir quatro pontos em que o capital de giro fica retido e como liberá-lo com método.
Estoques que não giram
O primeiro ponto está no almoxarifado. Itens comprados em lotes maiores do que a demanda, produtos de baixa saída e materiais obsoletos ocupam espaço, geram custo de armazenagem e, principalmente, imobilizam dinheiro que já saiu do caixa e ainda não voltou.
A análise começa pela classificação dos itens segundo seu peso no consumo e sua velocidade de giro. Em geral, uma pequena parcela dos produtos responde pela maior parte do movimento, enquanto uma cauda longa de itens permanece meses parada, à espera de uma venda que talvez nunca aconteça.
A Fource Consultoria considera essa revisão uma das primeiras alavancas de caixa em uma reestruturação. Reduzir lotes de compra, liquidar o que está obsoleto e ajustar o nível de segurança de cada item libera recursos sem afetar o atendimento aos clientes que de fato sustentam a receita.
Recebíveis sem política de crédito
Uma empresa que vende bem e recebe mal financia os próprios clientes. Prazos concedidos para fechar negócios, ausência de análise de crédito e cobrança tardia alongam o ciclo de recebimento e aumentam a inadimplência, muitas vezes sem que a área comercial perceba o efeito no caixa.

A correção passa por uma política de crédito escrita, com limites por cliente, prazos padronizados e régua de cobrança que começa antes do vencimento. A concentração também merece atenção: depender de poucos clientes grandes, com prazos longos, transfere a eles parte relevante do risco do negócio.
Prazos com fornecedores mal negociados
Do outro lado do ciclo estão os pagamentos. Empresas em dificuldade às vezes pagam fornecedores antes do vencimento por hábito, aceitam prazos curtos sem negociação ou concentram compras em fornecedores que não oferecem condições compatíveis com o próprio ciclo de recebimento.
Na leitura da Fource Consultoria, a renegociação de prazos precisa ser feita com cuidado, porque fornecedores críticos sustentam a operação. O objetivo é alinhar o calendário de pagamentos ao de recebimentos, com transparência e previsibilidade, e não transferir o problema de caixa para a cadeia de suprimentos.
Créditos tributários acumulados
Um ponto menos visível são os créditos tributários que a empresa tem direito a recuperar e não recupera. Em determinadas atividades e regimes, saldos de impostos pagos a maior ou de créditos sobre insumos se acumulam ano após ano, registrados no balanço, mas sem conversão em caixa.
A recuperação exige levantamento técnico, documentação organizada e conhecimento dos caminhos legais para compensação ou ressarcimento. O processo leva tempo, mas, quando estruturado desde o início do turnaround, transforma um ativo esquecido em fonte concreta de recursos.
Capital de giro como disciplina permanente
As quatro frentes têm algo em comum: nenhuma depende de crédito novo ou de venda de ativos estratégicos. Todas dependem de informação organizada e de rotinas que acompanhem estoques, recebimentos, pagamentos e créditos com regularidade, e não apenas quando o caixa aperta.
Por isso, a Fource Consultoria avalia que o ganho mais duradouro está em manter essa disciplina depois da crise. Empresas que monitoram o próprio ciclo financeiro com a mesma atenção dedicada às vendas reduzem a necessidade de financiamento e negociam com credores a partir de uma posição mais sólida.

