Escrever uma função em segundos, gerar testes automaticamente e criar a estrutura inicial de uma aplicação com poucas instruções: Jean Pierre Lessa Ferreira, CTO e especialista em tecnologia, software e inteligência artificial, observa que os assistentes de programação mudaram a velocidade com que o código chega aos repositórios das empresas. O ganho é perceptível já nas primeiras semanas de uso.
A questão para as equipes de engenharia de software é o que acontece depois. Código escrito mais rápido precisa ser lido, revisado, testado, corrigido e adaptado ao longo do tempo. A economia de tempo na criação pode resultar em custo adicional na manutenção.
Esse equilíbrio entre produtividade imediata e sustentabilidade do sistema é um dos debates centrais da inteligência artificial aplicada ao desenvolvimento. O código gerado por IA pode ampliar o trabalho de manutenção e apresentar riscos. Entenda como as equipes podem aproveitar a tecnologia.
O equilíbrio entre agilidade e qualidade no desenvolvimento
Em um sistema, a codificação representa apenas uma parcela do esforço total exigido. Grande parte do tempo das equipes é dedicada a compreender trechos existentes, investigar falhas, adaptar funcionalidades a novas regras de negócio e garantir que uma alteração não quebre outras partes da aplicação. A qualidade do trabalho está diretamente relacionada à clareza e à coerência do código produzido.
Conforme esclarecido por Jean Pierre Lessa Ferreira, diretor de tecnologia, os assistentes de IA são altamente eficientes na geração de código funcional no contexto imediato, contudo, nem sempre consideram o cenário mais amplo do sistema. Uma solução pode resolver o problema solicitado e, ao mesmo tempo, ignorar padrões já adotados pela equipe, duplicar lógicas existentes em outros módulos ou introduzir dependências desnecessárias.
Ademais, há um efeito sobre o conhecimento das equipes. Ao aceitar uma sugestão sem uma compreensão integral, o código é integrado ao sistema sem que ninguém domine sua lógica. Meses depois, diante de uma falha ou de uma necessidade de alteração, alguém precisará reconstruir esse entendimento, muitas vezes sob pressão e com menos contexto do que havia no momento da criação.

Quais os riscos mais comuns do código gerado por IA?
Os problemas associados ao código produzido com apoio de inteligência artificial raramente aparecem de imediato. Eles tendem a se acumular de forma gradual e a se manifestar quando o sistema precisa evoluir:
- Duplicação de lógica: o assistente pode gerar uma nova implementação para algo que já existe em outra parte do sistema, criando versões paralelas da mesma regra que precisam ser mantidas separadamente.
- Inconsistência de padrões: trechos gerados em momentos diferentes podem seguir estilos, convenções e abordagens distintas, tornando o código mais difícil de ler e de revisar.
- Falhas de segurança sutis: validações incompletas, tratamento inadequado de dados sensíveis ou uso de práticas desatualizadas podem passar despercebidas quando a revisão é superficial.
- Dependências desnecessárias: sugestões que importam bibliotecas externas para resolver tarefas simples ampliam a superfície de risco e aumentam o esforço de atualização ao longo do tempo.
- Testes que confirmam o erro: quando o mesmo assistente gera o código e os testes, ambos podem compartilhar a mesma interpretação equivocada do requisito, dando falsa sensação de segurança.
- Volume maior para revisar: com mais código produzido em menos tempo, a revisão humana se torna um gargalo, e a tendência de aprovar alterações sem análise cuidadosa aumenta.
O especialista em software e inteligência artificial, Jean Pierre Lessa Ferreira, chama a atenção para o efeito combinado desses fatores. A princípio, cada um parece representar um problema pequeno. Com o passar dos meses, o débito técnico é acumulado, tornando cada nova alteração mais lenta e arriscada, e anulando parte do ganho obtido na fase de criação.
Como usar a IA no desenvolvimento sem multiplicar a manutenção?
A primeira medida é tratar o código gerado por IA com o mesmo rigor aplicado a qualquer contribuição. A revisão por pares, os padrões de arquitetura e os testes automatizados continuam indispensáveis. Na prática, o desenvolvedor que aceita uma sugestão passa a ser responsável por ela.
O contexto fornecido ao assistente influencia diretamente a qualidade do resultado, segundo Jean Pierre Lessa Ferreira, CTO. Ferramentas que têm acesso às convenções do projeto, à estrutura do repositório e à documentação interna tendem a produzir sugestões coerentes com o sistema existente.
Outra prática eficaz é direcionar a IA para as tarefas em que agrega mais valor com menor risco. Jean Pierre Lessa Ferreira, diretor de tecnologia, afirma que acompanhar indicadores, como a taxa de falhas, o tempo de revisão e o volume de retrabalho, permite identificar se a aceleração gera ganho ou apenas transfere esforço para as etapas seguintes.
Velocidade com responsabilidade sobre o código
Os assistentes de inteligência artificial já fazem parte do desenvolvimento de software. O ganho de velocidade é concreto, mas o código precisa ser compreendido, mantido e adaptado por pessoas durante toda a vida do sistema.
Equipes que adotam a tecnologia sem ajustar seus processos de qualidade podem descobrir que trocaram rapidez na criação por lentidão na evolução. Já as que combinam IA com revisão e métricas conseguem preservar a produtividade.
Além disso, Jean Pierre Lessa Ferreira, especialista em tecnologia, considera que o resultado depende menos da ferramenta escolhida e mais da disciplina com que ela é incorporada ao trabalho. Quando a Inteligência Artificial amplia a capacidade das equipes sem substituir o entendimento sobre o que está sendo construído, a aceleração deixa de ser um empréstimo e passa a ser um ganho duradouro.

